Entrevistas – Projeto WOMANART

Conheça as entrevistas realizadas no âmbito do Projeto investigação Mulheres, Artes e Ditadura. Os casos de Portugal, Brasil e Países Africanos de Língua Portuguesa (financiado pela Fundação para a Ciência e tecnologia, PTDC/ART-OUT/28051/2017).

http://ceh.ilch.uminho.pt/womanart/?cat=126

II Ciclo de Cinema – WOMANART

O Ciclo de Cinema WOMANART é uma organização Grupo de Investigação em Artes, Género e Estudos Pós-Coloniais (CEHUM)  no âmbito do projecto de investigação Mulheres, Artes e Ditadura. Os casos de Portugal, Brasil e Países Africanos de Língua Portuguesa (financiado pela Fundação para a Ciência e tecnologia, PTDC/ART-OUT/28051/2017).

 Depois de uma primeira edição dedicada sobretudo ao contexto português, desta feita serão mostrados olhares de várias realizadoras sobre questões da ditadura, suas repercussões e impacto, nos contextos Brasileiro e dos Países Africanos de Língua Portuguesa.

Local: Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, Braga

Sessões às 21h

Contacto: Joana Passos (jfvpassos@gmail.com)  e Laís Natalino (laisnatalino@ilch.uminho.pt)

24 de setembroTerceiro andar (2016). Realizadora: Luciana Fina.

8 de outubroQue bom te ver viva (1989). Realizadora: Lucia Murat.

22 de outubroAtrás de portas fechadas (2014). Realizadoras: Danielle Gaspar e Krishna Tavares.

|SESSÃO EXTRA| 5 de novembroDiário de uma busca (2011). Realizadora: Flávia Castro

Mais informações no site: http://ceh.ilch.uminho.pt/womanart/?cat=107

Tarefa I, de Letícia Aparente no acervo da Pinacoteca

GAPS EM QUARENTENA

Retirado de: Pinacoteca de São Paulo

A Pinacoteca de São Paulo, museu da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, apresenta distância, primeira exposição de vídeos e filmes pensada especialmente pelo museu para os meios digitais para ser apreciada pelo público durante este período de confinamento social. É também a primeira vez que o museu realiza uma mostra apenas online. A ação inédita reúne cinco trabalhos do acervo que poderão ser vistos a partir da próxima terça-feira (12) até o dia 3 de agosto no site http://www.pinacoteca.org.br. A curadoria é de Ana Maria Maia.

Os selecionados são: Da janela do meu quarto (2004) de Cao Guimarães; O batedor de bolsa (2011) de Dalton Paula; Tarefa I (1982) de Leticia Parente; 9493 (2011) de Marcellvs L.; e A banda dos sete (2010) de Sara Ramo.

No vídeo Tarefa I, de Letícia Aparente o sentido de distância extrapola os limites físicos e entra no campo social e uma empregada doméstica negra passa roupa da artista sem tirá-la do corpo. O movimento causa estranheza e propõe uma reflexão sobre o legado da servidão

Leticia Parente (Salvador, 1930 – Rio de Janeiro, 1991)
Tarefa I, 1982
Vídeo. Duração: 1’56”
Doação dos Patronos da Arte Contemporânea da Pinacoteca do Estado de São Paulo 2017, por intermédio da Associação Pinacoteca Arte e Cultura – APAC, 2018

Confinamento(s) em tempo de ditadura – Testemunho de Helena Pato

GAPS EM QUARENTENA

Retirado na íntegra de: Esquerda.net

Covid-19 e clausura fascista, xô, xô! Vade-retro, satanás!

E, no entanto, o confinamento social e a clausura da prisão política não são a mesma coisa. Nem sequer se parecem. Estar confinada nos meus 100 metros quadrados é muito diferente de estar enclausurada nuns exíguos 9 metros quadrados, com uma janela gradeada, que apenas me deixava espreitar uma barreira de terra e que me barrava o mundo, o céu e o sol. Agora eu disponho de televisão, internet, música, jornais, livros e telefone. Agora eu sou uma cidadã de pleno direito, de corpo inteiro e não um pseudónimo. Agora eu converso com a família e os amigos, sempre que me apetece e acerca de tudo o que quero; e não estou vigiada, como acontecia durante as conversas habilmente cifradas (para que não fossem abruptamente interrompidas) – aquelas conversas semanais, limitadas a 20 minutos, com apenas dois familiares, de quem eu estava separada por um vidro, e que decorriam na presença tirânica de uma guarda e dois agentes da PIDE, numa atmosfera única, que dificilmente conseguimos transmitir.

Não pensem nunca que o “confinamento Covid-19” é ou foi semelhante. Não é. Há uma diferença abismal. Sofrer a amputação total de liberdades, num quadro altamente repressivo de um regime fascista, é radicalmente diferente de estar condicionado em alguma liberdade de movimentos, por razões de ordem sanitária, num Estado democrático. Essa é uma comparação que até dói. A mim dói-me, mas eu falo por mim, pois cada um sabe de si (embora esteja certa de que seremos muitos a sentir o mesmo). Foi a lembrar-me do que ouvira contar aos meus amigos – que penaram duras penas, durante meses, nos curros do Aljube, em cubículos com 1 metro de largura –  que eu encontrei alguma força, 3 anos mais tarde.

Em Caxias, eu estive 5 meses e meio quase sempre sozinha, tendo por distracção pouco mais do que os meus pensamentos e umas quantas formigas que, lá fora, corriam e contornavam as florzinhas amarelas – um mundo a dar vida à terra da barreira, erguida a um metro da minha janela. Elas eram tudo o que eu podia ver da Natureza. Elas eram a Vida possível ali na minha frente, um deleite supremo para os meus olhos, mesmo que sofresse o constrangimento provocado pela presença constante de um guarda da GNR que nos olhava, lá do cimo, enquanto caminhava na sua rotina de nos vigiar.

Nenhum dos antifascistas que passaram por um período de isolamento total esquece o que sentiu, o que isso significava. Não foi o meu caso, mas houve companheiros que sofreram mais com o isolamento do que com as torturas.

Para sobreviver, cada um de nós criou as suas próprias rotinas e foi graças a elas que o ânimo não quebrou, nem se endoideceu. Eu pouco tenho para contar das minhas –  eram tão pobrezinhas, que são até difíceis de descrever.

Eu a agarrar-me a uma única ideia de salvação da minha saúde mental: a de que, com o meu presente, eu estava a escrever o futuro – o meu próprio e, seguramente, o de muitos outros

Foram meses e meses a inventar o que fazer para cortar o vazio, um tempo cheio de nada, de coisa nenhuma além de inquietação. Meses à espera de vir a ser, ou de não ser, levada a Tribunal Plenário. Foram dias em que vivi realmente a sós comigo, a aturar-me (como pude) no desânimo e na raiva, e a animar-me, recorrendo a todas as armas psicológicas e ideológicas que tinha levado para dentro da prisão. Hora após horas, a fugir da profunda tristeza de um dramático passado recente, sem poder dividi-la com ninguém; ela a voltar sempre e eu a agarrar-me a uma única ideia de salvação da minha saúde mental: a de que, com o meu presente, eu estava a escrever o futuro – o meu próprio e, seguramente, o de muitos outros. Mas eles não cediam e eu também não. Hoje, no confinamento, se precisasse de desabafar, eu pegava no telemóvel e tinha dezenas de pessoas com quem, segundos depois, podia fazê-lo.

Oh, amigos, isto agora é tão diferente!

Passámos por um “estado de excepção” e por um “estado de calamidade”, e nunca deixei de acordar na tranquilidade que me é oferecida por cada dia saudável, fruto do confinamento (provavelmente ainda exagerado), que me imponho… – Agora, tudo depende apenas de mim, do meu querer, da minha força para me manter em segurança. Mas no Forte de Caxias, mal acordava e ouvia os passos da guarda, já o coração me pulava dentro do peito. Aí vem ela… (“prepare-se para ir a lisboa”…). Uma ansiedade diária, durante meses: «Será que é hoje que vou para a tortura? Tomara entrar, de vez, “no sono”». A solidão era permanentemente invadida por um misto de medo e da forte vontade de despachar aquela horrível inevitabilidade. Actualmente, confortavelmente confinada num apartamento – e fosse até num casebre … –  dou-me ao prazer de fazer um bom assado, escolher um bom vinho e, sem pressas nem horários (quantas vezes, a trocar o Sábado pelo Domingo), entrego-me ao gosto de me acomodar num sofá com um tabuleiro, a ler um livro, a ouvir música ou, simplesmente, a ver o sol tornar-se vermelho no horizonte. Agora, enquanto envelheço, sozinha,  insistindo ainda num rigoroso confinamento – porque quero fruir tudo o que a Vida continua a dar-me e é tanto! – falo com os meus filhos e faço projectos para um reencontro próximo. A quebra do confinamento total acontecerá quando os três quisermos, porque somos livres de decidir: apenas o nosso amor, cruzado com o sentido de cidadania, lhe imporá limites.

Mulheres de Abril: Testemunho de Helena Pato

Oh, amigos, agora tudo é tão diferente!

Há dois meses que encho o quotidiano de afazeres que têm um sentido prático, mas não deixam de ser prazerosos. Não há comparação com as rotinas da cela, em Caxias…

Lá, os hábitos do quotidiano, que criei para sobreviver, funcionavam como um refúgio para repouso emocional. Durante os meses em que eles não desistiram de obter da minha boca as confirmações que pretendiam, nada quebrava a minha rotina na cela, salvo as idas para interrogatório. Nos intervalos de dias, entre essas viagens a Lisboa, passava muito tempo deitada em cima da cama, acordada, entretida com os meus pensamentos – muitos, sei lá, hoje, onde eles me transportavam… – e, por momentos, voltava a ser uma pessoa realmente livre. Sem limites, de frente para mim, e com medo de ter medo, embalava nas recordações do amor a quem me queria muito; e recuava ao tempo em que estava segura do que me movia – do que, afinal, me levara àquela situação. Em breve, via chegarem-me as forças de que tanto precisava para conseguir manter a confiança na organização e no futuro da Humanidade, apesar de algum desmoronamento, que me trazia tanta preocupação e dor. De manhã, entre um cigarro e outro, lavava roupa, as roupas negras da viuvez que continuavam a acompanhar-me. Lembro-me que, ao fim da tarde, ia às grades e cantava, cantava muito e a plenos pulmões: “Quem canta por conta sua canta sempre com razão, mais vale ser pardal na rua que rouxinol na prisão” –  O que eu gostava! Cantar era uma forma de dizer às companheiras da cela ao lado que ainda ali continuava, ou que já tinha regressado da “tortura do sono” (como um dia aconteceu). A proximidade da secretária das guardas impediam-me outra forma de comunicação.

E, na expectativa de me manter fisicamente resistente para mais outra dose de “o – que – desse – e viesse”, lá por Lisboa, eu fazia ginástica: saltos à corda sem corda, exercícios de pernas e de braços ou rodando a anca, imitações do que tinha aprendido no liceu. A meio da tarde – oh, excelso prazer! – deliciava-me com o nescafé que fazia no púcaro de alumínio, e que bebia enquanto amassava miolo de pão, com as pontas dos dedos, e via nascer, nas minhas mãos, as flores e os cestos. Alinhava-as no cimento do chão, à espera de secarem, sem cor, pois a pidesca direcção do Forte nem aguarelas me deixara entrar, para poder pintá-los. Um dia, já perto da minha libertação, autorizaram-me a entrada de uma agulha de crochet e dois novelos de linha lilás, e a minha vida na cela ganhou outra dimensão: fazia sacos de guardanapos, em série. Mas, até ao fim dos 5 meses, continuei sem livros, sem jornais, sem canetas ou lápis, sem papel, sem pano ou linhas ou tesouras, sem lã para tricotar. Vi recusado tudo aquilo que pudesse distrair-me. Tudo para o que, sem excepção, eu solicitei permissão de entrada. Entretinha-me, então, a espreitar pelas frinchas da madeira da minha porta, a ver vultos, a ouvir as conversas das guardas, a ver quem aparecia à porta da cela da frente, quando ela se abria (foi assim que soube da prisão da minha camarada Aida Paulo).

Cinco meses em que não soube o que era o recreio, sem respirar o ar exterior à cela. Minto: quando ia aos interrogatórios, na Rua António Maria Cardoso, mudava de ares – na carrinha celular e no 3º andar da sede da PIDE.

Cinco meses sem dar um beijo ou um abraço à minha família. Cinco meses entre o desejo de passar ao chamado regime normal e a expectativa, direi mesmo a esperança, de que de repente me comunicassem que iria ser libertada sem ir a julgamento. Assim foi.

Nenhum de nós, resistentes antifascistas, esquece o grau de isolamento e solidão, em que, na ditadura fascista, muitos foram forçados a viver nas cadeias, durante meses ou anos

Depois da tortura, eles terão desistido de obter (comigo) os resultados que pretendiam, e o inspector do meu processo, Sílvio Mortágua, decidiu mudar-me para a cela de uma companheira desse mesmo processo. Porém, mesmo acompanhada, o regime de isolamento persistiu, até ao dia em que, já perto dos seis meses, o sinistro Sachetti, Sub-director da PIDE, me chamou a Lisboa. Era finalmente a libertação, após umas frases que ainda guardo na minha memória: «O que os nossos ouvidos ouviram e os nossos olhos viram não podem ser negados. Apanhámo-la em verde e, desta vez, vai embora…Vencidos mas não convencidos! Há-de cá voltar!» 

Não gosto nada de estar sempre a recontar isto, a voltar a esses tempos. Mas é verdade que nenhum de nós, resistentes antifascistas, esquece o grau de isolamento e solidão, em que, na ditadura fascista, muitos foram forçados a viver nas cadeias, durante meses ou anos. Nunca esquecerei a mão da minha Mãe espalmada no vidro do parlatório, num adeus. Quantos se lembrarão com dor, ainda agora, dos beijos dos filhos colados no vidro? As crianças a chorar e os agentes da PIDE a apressarem a Mãe: “Vamos rápido! Acabou a visita! Senhora guarda, leve a presa!”

Oh, amigos, o confinamento sanitário é tão diferente! Acreditem: aquele era um isolamento não comparável com este que se vive no presente. É imperioso recordar tudo o que se viveu – isto e muito, muito mais – e só aceitei fazê-lo porque sei a importância que têm todos os testemunhos, quer daqueles que mais sofreram na Ditadura, quer dos outros, os que menos sofreram. Trata-se de uma pedagogia política contra o regresso do fascismo.

E, no entanto …

Hoje somos velhos e, naquele tempo, éramos jovens. Durante o regime fascista, os jovens da minha geração, que lutavam na Resistência, apareciam nas notícias clandestinas da repressão. Agora, os mesmos cidadãos, idosos entre os mais velhos dos velhos, procuram fugir de entrar na contabilidade diária dos óbitos…

Este assassino das nossas vidas não tem um rosto. Tem um nome, mas não é uma entidade tangível, ou um ser vivo ao qual possamos assacar a primeira ou a última das responsabilidades. Unidos no seu combate, enfrentamos um flagelo que irá deixar, possivelmente, milhões de vítimas e que, na sua extensão geográfica, não tem semelhanças com qualquer outro, daqueles que vivemos ou conhecemos no passado. (Talvez a Pneumónica, de que ainda ouvi, na família, relatos vivos). O certo é que, quando imaginávamos que o maior dos sofrimentos colectivos poderia, no futuro, provir de catástrofes com origem nas entranhas do Planeta ou decorrentes de erros da Humanidade, vemo-nos de repente a lutar, corpo a corpo, com um inimigo invisível, um infinitamente pequeno, de dimensão inimaginável, que se abeira de nós e ora nos mata, ora nos esmaga, ora nos amedronta. E, curiosamente, para vencê-lo, pedem agora às mulheres e aos homens da minha geração, que ajam completamente ao invés do que aprenderam a fazer para vencerem o regime em que nasceram, cresceram e que viram cair (ou ajudaram a tombar). «Não enfrentem a besta, fujam, escondam-se dela e ela morrerá» – dizem-nos, de todo o mundo. Assim fazemos, alguns de nós, beneficiando de hábitos de disciplina adquiridos nas lutas da juventude.

E eu sei (ou espero) que, mais uma vez, possa este combate em união ter uma vitória certa. Protejo-me por todos os meios, fecho-me e isolo-me em casa, dias e dias, meses e meses, se for preciso. Não escondo a dor forte da ausência dos meus queridos filhos, uma dor a que eu nunca pensei ter de regressar. Vou, aos poucos, e confiando no SNS, tornando menos rigorosas, (ou novamente mais rigorosas, se for preciso), as medidas de confinamento, persuadida de que, para já, assim tem de ser, se queremos defender-nos e defender a comunidade. Custa, sim, mas adoro viver. Conforto-me com a expectativa da vacina e vou buscando alento ao enorme sentido de cidadania e aos gestos de solidariedade, revelados diariamente pelos povos de todo o mundo. Emocionam-me. Tal como dantes, como sempre, como em todas as lutas em que a Humanidade se agiganta.

Pessoalmente, tenho bem presente que este sacrifício duríssimo tem um objectivo impregnado de humanidade e que é infinitamente menos difícil do que o fascista “isolamento prisional” nos exigia. Esse pretendia esvaziar-nos da nossa dignidade, era entrecortado com a tortura e fazia parte do quadro de terror em que o regime da Ditadura lançava os presos políticos, para lhes impor a submissão, a denúncia e o medo.

Helena Pato
17/05/2020

Galeria Luisa Strina – ANNA MARIA MAIOLINO “É O QUE É”, 2019

GAPS EM QUARENTENA

Galeria Luisa Strina – ANNA MARIA MAIOLINO “É O QUE É”, 2019

Estreia online na quarta-feira, 20 de Maio, às 11:00 H
Em comemoração ao aniversário da artista

“É O QUE É” é o título do mais recente vídeo produzido por Anna Maria Maiolino. Ela define esse trabalho como “a-documentário” ou “entre -documentos” e faz parte de uma pequena série de vídeos na qual a artista se associa ao real como motivador poético da obra.

A maneira livre como foi utilizada a câmera na captação de imagens evidenciam que nessa filmagem não há interesse em dar supremacia ao olhar. O vídeo escorre entre a presença da morte e seus mistérios com os movimentos livres da câmera e os sons no espaço escuro da gruta do cemitério Delle Fontanelle. Os sons produzidos pela voz de Tania Piffer acentuam o sortilégio do espaço, e o vídeo, não obstante a não linearidade da narrativa vai adquirindo sentidos entre o irônico e o trágico.

A gravação foi realizada na visita que Maiolino realizou ao “Cimitero delle Fontanelle” em Nápoles que ocupa espaços dos subsolos da cidade. A peculiaridade deste cemitério não está somente no que você vê, mas em todas as histórias, anedotas e curiosidades que tem por trás da sua história como antigo ossuário que se estende por mais de 3000 metros quadrados. O sítio do cemitério preservou quatro séculos de restos mortais daqueles que não podiam pagar um enterro, vítimas das epidemias que frequentemente atingiam Nápoles. Ossos e crânios amontoados ficam à vista do visitante.

A ligação e sentimentos junto com ao imaginário da vida após a morte faz parte da vida cotidiana dos napolitanos e é integrante à cultura da cidade.

Link disponível em breve em: http://www.galerialuisastrina.com.br/artistas/anna/

 

Imagem de: Maycon Lima

Mulheres de Abril: Testemunho de Diana Andringa

GAPS EM QUARENTENA

Retirado na íntegra de: Esqueda.net

Mulheres de Abril: Testemunho de Diana Andringa

Então, a prisão. Como leu num texto da Praça da Canção, “de certo modo estava no (seu) posto”. Era, de algum modo, o reconhecimento. De uma grande responsabilidade política? Não. Daquilo que marcara a sua vida, porque não saberia ser de outra maneira: a extraordinária força dos porquês. Por Diana Andringa.
Ficha prisional de Diana Andringa.

Este é o décimo sétimo testemunho de uma série de mais de 20, a ser publicada pelo Esquerda.net. São relatos, na primeira pessoa, de mulheres antifascistas sobre a sua história de resistência e de luta contra a ditadura.

À medida que os testemunhos forem publicados, poderá consultar toda a série em: Mulheres de Abril. O próximo testemunho será publicado na quinta-feira, dia 11 de maio. Coordenação de Mariana Carneiro.


A extraordinária força dos “Porquê?”

As negras mãos dele, normalmente tão leves, tão cuidadosas, tinham-se transformado em estranhas bolas de carne e o sorriso, sempre presente quando falava connosco, mudara-se em soluços e lágrimas e arrepios sucessivos que lhe abanavam o corpo. Enquanto a mulher branca, indignada, procurava um remédio que lhe atenuasse as dores, o homem branco levantou-lhe as mãos lentamente, com uma doçura inabitual. “Desculpa”, murmurou, e a palavra era também surpreendente, porque nada fizera que a justificasse. Então, porque a dizia? Seria, não por ele, mas por alguém com cuja pele branca a sua se confundia? Porquê?

Houve também aquela frase da professora, ao mostrar os cadernos, limpos e cuidados, dos meninos da escola negra: “Eles não se podem dar ao luxo de não estudar.” Porquê?

Porque é que, em lugar de andarem de baloiço, como nós, eles capinam o jardim? Porque é que o cozinheiro negro diz que a filha nunca comeu um bife? Porque é que o velho de carapinha branca desce do passeio quando se cruza com a menina branca? O normal não seria o contrário? Porque é que um criado negro não pode fazer um recado à noite, por então não poder estar no interior da vila?

Porquê? Porquê?

Porque é que, no Puto, tantos meninos da escola primária andam descalços, mesmo no Inverno? Porque é que são esses as vítimas preferenciais das ponteiradas que as professoras desferem nos dedos inchados pelas frieiras? Porque é que, quando não lhes emprestamos os livros, não podem fazer os trabalhos de casa?

Porque é que, sob a bata, as meninas do colégio estão sempre bem vestidas, e aprendem línguas em casa em lições particulares? Porque é que os pobres a quem levamos alimentos para a Ceia de Natal têm tantos filhos, se o dinheiro é tão pouco que precisam dessa esmola? Porquê?

Diana Andringa com 3/4 anos, na varanda da sua casa no Dundo.

Há perguntas que não se fazem. Essa dos pobres, por exemplo. “A menina é malthusiana!” (“Quem será esse Malthus que, pelos vistos, citei sem saber?”)

O primeiro de muitos epítetos.

Outro foi “comunista”. Pois não escrevera no quadro, com outra colega, “Viva o Delgado!” ? (A verdadeira razão era ele ser aviador, e ela sonhar voar: “O que é ser comunista?”)

“Comunista”, também, ao após 1961 responder, a uma pergunta sobre o Estado Português da Índia, “Não há Estado Português da Índia.” (“Comunista é quem diz a verdade?”)

O pequeno mundo da infância sacudido por imagens de massacres. “Genocídio contra Portugal.” Memórias das mãos desfeitas pela palmatória, a escola segregada, os meninos que capinavam o jardim. “Do rio que tudo arrasa se diz que é violento, ninguém diz violentas as margens que o comprimem”, lerá mais tarde em Brecht, mas já o compreendera sem saber dizê-lo.

Na Faculdade, em 1964, falam-lhe de estudantes presos (“Estudantes presos? Porquê? Porquê?”). A alegria de ver um deles, Saldanha Sanches, voltar à liberdade. E depois, a 21 de Janeiro de 1965, logo de manhã, uma lista de nomes de colegas, de amigos, presos nessa noite. (“Porquê? Porquê?”)

A polícia diz que foram presos por serem comunistas. E então? “Porque é que não podem ser comunistas?” “Porque não.” “Porque não”, sempre lhe disseram, “não é uma resposta!”

Em que altura é que todos esses porquês confluem em algo que passa a ser rotulado de “atentado à segurança interna e externa do Estado Português”?

Quando se grita, alto, “Liberdade para os estudantes presos?” Quando se pintam cartazes exigindo a libertação dessas raparigas e rapazes cujo crime terá porventura sido, apenas, o de não aceitarem que “as coisas eram assim porque eram assim” e exigiam a mudança, um mundo melhor? Quando se participa em manifestações junto à prisão do Aljube, onde os colegas estão presos? Ou junto ao Tribunal da Boa Hora onde são julgados?

Diana Andringa quando voltou ao Dundo para preparar a rodagem do filme Dundo, Memória Colonial. Luanda, 2006. Foto de Zé Catanho.

 

Um amigo dá-lhe um livro: “Praça da Canção”. A dedicatória diz: “Para que um dia pense assim.” Estranho. Não encontra ali nada – para lá do estilo, da beleza das palavras – que não seja a mesma inquietação que a faz perguntar “Porquê?”

Há um dia em que chove demasiadamente, tanto que falha, até, o transporte para casa. Nos bairros frágeis ao redor da cidade, ruem barracas, morrem habitantes. Os apoios tardam. São os estudantes quem vai para o terreno, junto com os bombeiros, tirar lama, desenterrar cadáveres, vacinar populações. Senhoras da Cruz Vermelha, impecáveis nas suas fardas, evitam sujá-las enquanto entregam víveres insuficientes a famílias sem nada. Nas zonas ricas, cai um único muro. “Porquê? Porquê? Porquê?”

Tem já respostas teóricas para a pergunta, mas só uma – pueril, talvez – lhe interessa: “Porque é que tem de ser assim? Porque é que se aceita que tenha de ser assim?”

Os irmãos, os amigos, partem para uma guerra em que a razão cabe ao adversário. Chegam-lhe as histórias de outros massacres, os das “nossas tropas”. Fotografias de cabeças de negros espetadas em paus ou usadas como bolas de futebol. E as orelhas cortadas guardadas em frascos… Porquê? Porquê? É essa a superioridade cultural do homem branco?

Amigos presos, torturados, destruídos pela impossibilidade de resistir à tortura. Em fuga de uma guerra que recusam fazer. A censura a impedir toda a informação sobre o que realmente importa. Porquê? E não basta dar um nome à ditadura, é preciso saber porque é que dura. Recusar toda a cumplicidade. Gritar não.

Então, a prisão. Como leu num texto da Praça da Canção, “de certo modo estava no (seu) posto”. Era, de algum modo, o reconhecimento. De uma grande responsabilidade política? Não. Daquilo que marcara a sua vida, porque não saberia ser de outra maneira: a extraordinária força dos porquês.

Diana Andringa, em 2007, com o seu auto-retrato feito na prisão de Caxias, em miolo de pão.

* Diana Andringa nasceu em 1947, no Dundo, Lunda-Norte, Angola, vindo para Portugal em 1958. Em 1964 ingressou na Faculdade de Medicina de Lisboa, que abandonou para se dedicar ao jornalismo. Em 1968, frequentou o 1º Curso de Jornalismo criado pelo Sindicato dos Jornalistas e entrou para a Vida Mundial, de onde saiu no âmbito de uma demissão colectiva. Desempregada, foi copy-writer de publicidade, trabalho que a prisão pela PIDE, em Janeiro de 1970, interrompeu. Condenada a 20 meses de prisão por apoio à causa da independência de Angola, voltou ao jornalismo. De 1978 a 2001 foi jornalista na RTP. Foi também cronista no Diário de Notícias, na RDP e no Público e fugaz directora-adjunta do Diário de Lisboa. Actualmente documentarista independente – “Timor-Leste, O sonho do Crocodilo”; “Guiné-Bissau: As duas Faces da Guerra” (co-realização com o cineasta guineense Flora Gomes); “Dundo, Memória colonial”, “Tarrafal: Memórias do Campo da Morte Lenta”, “Operação Angola. Fugir para lutar” – regressou entretanto à Universidade, doutorando-se em Sociologia da Comunicação pelo ISCTE em 2013. Investigadora do CES-Coimbra.

Another Gaze Presents: The Legacies Of Sarah Maldoror (1929–2020)

GAPS EM QUARENTENA

Another Gaze Presents: The Legacies Of Sarah Maldoror (1929–2020) —12 May 2020

Rertirado na íntegra de: https://www.anothergaze.com/another-gaze-presents-legacies-sarah-maldoror-1929-2020-12-may-2020/

On 13 April, the political activist, theatre maker and filmmaker Sarah Maldoror died following complications from coronavirus. She was a crucial figure in the development of pan-African, lusophone and revolutionary cinema, best known for her groundbreaking film Sambizanga (1972), likely the first feature to have been directed by a woman in Sub-Saharan Africa. While the importance of the film as a critical touchstone of anti-colonial film cannot be overstated, it was only a small part of her prolific body of work. Over the following two decades Maldoror produced over two dozen films, most of them made for television, including short documentaries about various cultural figures such as Aimé Césaire, Louis Aragon and Léon Damas. In her honour, Another Gaze will host an event on 12 May, ‘The Many Legacies of Sarah Maldoror’, which will include introductions by Maldoror’s two daughters, readings of texts Maldoror admired and conversed with, and a roundtable discussion. Three of Maldoror’s films will be available on Another Gaze’s website in the days leading up to the event. By shedding light on the many legacies that Maldoror left behind, we hope to commemorate the breadth of her work, which in all its forms was motivated by a spirit of collectivity and plurality.

Sarah Maldoror was born Sarah Ducados to an Antillean father and a French mother in rural southwestern France. A passion for theatre first brought her to Paris, where she joined the théâtre de l’école de la rue Blanche, and a number of African and Caribbean artists with whom she co-founded the first Black theatre troupe in France, Les Griots, in 1956. Of this she said: “We were sick of playing maids. We wanted to choose our own roles. As there was four of us, we put on Jean-Paul Satre’s ‘Huis Clos’ […] We toured and played in universities for free. What we wanted most of all was to learn”. It was as part of this troupe that she adopted the surname Maldoror in homage to Les Chants de Maldoror (The Songs of Maldoror), the long prose poem by the 19th-century poet Lautréamont, much admired by the Surrealists, whose subversive artistic tactics were in turn an inspiration to the filmmaker. This name also indicates one of many points of connection with Aimé Césaire, who wrote in Discours sur le colonialisme (Discourse on Colonialism) : “The truth is that Lautréamont had only to look the iron man forged by capitalist society squarely in the eye to perceive the monster, the everyday monster, his hero.” In addition to her collaborations with Césaire, Maldoror’s work was in conversation with the Négritude movement, launched by Francophone Afro-diasporic writers and cultural producers, and was motivated by a Pan-Africanist perspective which also encompassed an engagement with a broader transnational revolutionary community. This was reflected at the start of her transition to filmmaking career in 1961, when she moved to Russia to study under Mark Donskoi at the Moscow Film Academy, and met Ousmane Sembène, the Senegalese ‘godfather’ of African Cinema. After leaving Moscow, she worked as assistant director on Gillo Pontecorvo’s The Battle of Algiers (1966), before making her first short ‘Monamgambée’ (1969), which can be seen as both a narrative and technical blueprint for her later feature Sambizanga (1972), a film about the Angolan liberation struggle as seen from the perspective of a wife and mother. For Maldoror, film was a tool of political education and an artistic, historiographic practice which allowed her to work towards an alternative, explicitly anticolonialist and feminist vision of the world.

—Event organised by Daniella Shreir (founder and co-editor, Another Gaze) and cultural worker and scholar Yasmina Price, with thanks to Annouchka de Andrade and Henda Ducados.

EVENT PROGRAMME

12 May, 9PM (GMT+2 – CEST)
8PM (UK) / 3PM (EDT) / 12PM (PDT)

i.
Annouchka de Andrade and Henda Ducados introduce the life and work of their mother, Sarah Maldoror.

ii.
A bilingual reading of extracts of Aimé Césaire’s Cahiers d’un retour au pays natal (Return to my Native Land), by Marie-Julie Chalu and Gazelle Mba. Reading of extracts from the work of Frantz Fanon, by Rooney Elmi.

iii.
A roundtable discussion about the legacies of Sarah Maldoror. The conversation will consider Maldoror’s work as an archival practice, an alternative form of historiography and a model for the necessity of cultural and artistic practices as part of revolutionary struggle. It will also consider Maldoror’s place as part of a broader context of anticolonial filmmaking around the time of African independence movements and the ways her work might be in dialogue with contemporary Black feminist filmmaking. With Yasmina PriceBeti EllersonAwa KonatéJanaína Oliveira and Nuotama Bodomo, followed by audience discussion. 

Three films by Sarah Maldoror will be made available from Friday 8 – Tuesday 12 May.

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BIOS

Yasmina Price is a cultural worker and scholar, currently a graduate student in the Departments of African American Studies and Film/Media Studies at Yale University. She works with anti-colonial African cinema and the subversive, politically charged production of filmmakers across the Black diaspora, with a particular interest in the experimental visual practices of women filmmakers. Her scholarship is anchored in a commitment to anti-imperialism and a liberated global south.

Daniella Shreir is a translator, programmer, graphic designer and founder and co-editor of Another Gaze. Her translation of Chantal Akerman’s My Mother Laughs came out in 2019 with Silver Press.  

*

Janaína Oliveira is a professor at the Federal Instituto of Rio de Janerio (IFRJ) and Fulbright scholar at the Center for African Studies at Howard University, in Washington D.C. She is the head programmer of the Zózimo Bulbul Black Cinema Encounter in Rio de Janeiro,  part of the programming committee of the FINCAR, International Women Filmmakers Festival in Recife, and the advisor for African and black diaspora films for the Locarno Film Festival, in Switerzland.  She is a member of the Association of Black Audiovisual Professionals (APAN) and is the founder and coordinator of the Black Cinema Itinerant Forum (FICINE). Oliveira is the programmer of the 66th edition of the Flaherty Film Seminar in New York.  

Beti Ellerson is the founder and director of the Centre for the Study and Research of African Women in Cinema and has published extensively and spoken widely on African women and the moving image. She holds a PhD in African studies from Howard University, is the author of Sisters of the Screen: Women of Africa on Film, Video and Television (Africa World Press, 2000), and creator of the documentary Sisters of the Screen: African Women in the Cinema (2002). Ellerson was the keynote speaker at the 2012 colloquy on Francophone African Women Filmmakers in Paris.

Awa Konaté is a Danish-Ivorian critic, programmer and curator of contemporary art based between London and Copenhagen. She is the founder of the interdisciplinary research platform Culture Art Society (CAS), which intersects critical studies and art theory to research the cultural economy of African archives and that of its wider diaspora. Her research draws on combining literature, cinema and visual arts to form a critical curatorial practice of memory work, which pursues the ways in which the archive effects, informs and can reinform liberatory practices beyond disciplinary specificities. She has been published in Third Text, Paletten art Journal, Widewalls Magazine, The Nordic Africa Institute, and more.

Nuotama Bodomo is a Ghanaian writer and director. She grew up in Ghana, Norway, California, and Hong Kong before moving to New York to study film at Columbia University and NYU’s Tisch School of the Arts. Her short films Boneshaker (2013) and Afronauts (2014) both premiered at Sundance Film Festival and went on to screen at festivals including the Berlinale, Telluride, SXSW, and New Directors/New Films. Afronauts received five Grand Jury Prizes and will play at the Whitney Museum in the fall as part of “Dreamlands: Immersive Cinema and Art, 1905–2016.” Bodomo most recently directed the short segment Everybody Dies! for the omnibus feature Collective:Unconscious (2016), which premiered at the 2016 SXSW Film Festival. It won Best Experimental Short at the 2016 BlackStar Film Festival.

*

Gazelle Mba is a writer and editor from Nigeria currently living in Marseille. She is one of the editors of Nommo, a new political and cultural magazine dedicated to anti-colonial and anti-imperialist internationalisms, her writing has appeared in Another Gaze and Worms magazine. She also hosts a radio show called Loopholes of Retreat on Panicfm, including one in honour of Sarah Maldoror available here.

Marie-Julie Chalu is an actress and writer. Through her project Iconoclate, she expresses an interest in cultura, social, aesthetic and postcolonial dynamics. She is also the founder of Afropea, a curotorial and editorial project about Afro-European identities. 

Rooney Elmi is a independent film creative with a hyper-focus on nonfiction cinema and utilizing the camera as a liberation tool for marginalised communities. Elmi is also the editor-in-chief of SVLLY(wood), a experimental print and digital movie magazine geared toward curating a radical cinephilia and co-runs NO EVIL EYE, a nomadic underground microcinema with Ingrid Raphael. Bylines can be found at Film Comment, The FADER, Hyperallergic, and more.

BoCA Online – 4 a 10 MAI

GAPS EM QUARENTENA

 

boca online

Atividades semanais, #bocaonline comissiona instruções de performances para serem ativadas em casa – Homework; comissiona e apresenta live streaming de performances – Live Streaming; mostra vídeos e filmes de artistas de coleções (parceria BoCA com Tate Modern e Coleção Fundação de Serralves) e do arquivo BoCA – Press Play; conversa com artistas, pensadores, cientistas, ativistas ou curadores – Conversas Online; apresenta uma nova versão de #ecotemporaneos, que alia fotografia, natureza e literatura dentro de casa – Ecotemporâneos; e desenvolve a plataforma #bocasub21, dedicada à criação artística e pensamento dos mais jovens, entre 16-21 anos – BoCA Sub21.

Em:
http://www.bocabienal.org/

Ser clandestino em tempo de ditadura e por causa dela – Por Isabel do Carmo (28.04.2020)

GAPS EM QUARENTENA

Ser clandestino em tempo de ditadura e por causa dela – Por Isabel do Carmo (28.04.2020)

Retirado de: Esquerda.net

Projeto “Confinamento(s) em tempo de ditadura”, organizado por Mariana Carneiro.

A resistência durante os 48 anos de ditadura convém ser medida nessa escala. Enquanto na resistência ao nazismo nos países ocupados durou o tempo da guerra, aqui, em Espanha e na Grécia, durou décadas e apanhou três gerações.

Ser clandestino ou era uma opção para fazer tarefas clandestinas, e para isso era necessário ter uma identidade social de fachada, ou era-se clandestino porque de outro modo se era preso, porque tinha havido uma denúncia. Eu fui clandestina porque fui denunciada num interrogatório de um preso. Não tive outra opção. Andei por várias casas. Algumas legais, sem a presença dos habitantes habituais, outras com os seus habitantes legais, “normais”. Outras alugadas com falsos nomes e com uma vivência construída com um cenário de fachada.

Numa delas estive com a minha filha de ano e meio, sozinha com ela. Foi muito difícil. Ela pedia rua, pedia o cão, que andava pela rua. Era difícil entretê-la. Eu estava dependente dos camaradas, que me traziam comida e noticias ou faziam reuniões. Depois vi que era impossível continuar com a minha filha. E a separação tem um tema principal: até quando? Tenho uma grande admiração por essas mulheres que estiveram anos em casas clandestinas, suportando uma vida de fachada, rectaguarda de uma rede em que elas suportavam uma dupla sombra, visto que raramente participavam nas reuniões ou da acção política directa.

Estar numa casa clandestina é ter medo de cada toque de campainha, de cada barulho na rua mais estranho, de cada cara fora do habitual. É tão diferente deste confinamento actual, que muitas vezes sinto uma comparação e uma euforia, porque estou aqui porque quero, abro a janela, falo com a vizinha do lado pela escada de serviço. Sou livre. Pus uma bandeira vermelha à janela no dia 25 de Abril. Que alegria! Não tenho medo.

Outro confinamento é o do isolamento na prisão. Caxias. Entramos, aferrolham a porta. Aquele som da chave a rodar, sem volta atrás. E a nossa solidão. Sem livros, sem papéis, sem relógio. Em frente a janela gradeada a dar para um muro. E no cimo do muro as botas de um guarda para cá e para lá. WC privativo, para não haver saídas da cela. Quinze minutos por dia “recreio”: um pátio de altos muros, sem tecto e sem gente. Suportei muito mal este isolamento, tanto mais que me enfrasquei em café, pois tinha isso sim, comigo, um frasquinho de Nescafé. Má ideia, pois fiquei intoxicada em cafeína, com as respectivas consequências. O isolamento é uma tortura e muitos foram os que o suportaram por largos meses e heroicamente. Li o depoimento de um sobrevivente dos campos de concentração, onde este dizia que o isolamento era pior que os campos, porque nestes havia gente.

O ser humano sobrevive em colectivo. Fica menos inteligente isolado. Definha.

Curiosamente, depois da contra-revolução, em 1978, fui presa durante quatro anos e estive oito meses em isolamento, primeiro na cadeia da PJ do Porto e depois em Caxias. Outra vez os quinze minutos de recreio e os mesmos guardas do antigamente, com as mesmas conversas. Condenada na Boa-Hora por dois juízes ultra do plenário. Julgamento depois anulado.Com um procurador da Intersindical (era na altura a onda dos procuradores) a pedir a pena máxima dentro da acusação. Parecia um filme de reconstituição do antigamente. Sala cheia de polícias. Calabouços da Boa-Hora, mais confinamento. Sinistro. A chamada esquerda revolucionária e alguns socialistas foram solidários. A outra, ou foi cúmplice ou calou-se. Mais uns meses de isolamento nas Mónicas. Celas de pedra exíguas. Janela estreita, gradeada, com profundidade superior a um braço estendido. Grande diferença em relação a estes confinamentos pós-contrarrevolução. Tinha livros, jornais, revistas, cadernos, papéis! É uma grande diferença. E enquanto o meu filho dormia a sesta era uma festa de leitura. Depois dava-lhe revistas para rasgar. O rapaz é agora um grande leitor. E vou com os filhos dele, de seis e três anos, uma vez por semana à livraria.

De modo que este confinamento comparado com os do passado, principalmente durante a ditadura, é uma festa. É voluntário. Temos livros, revistas e jornais. Televisão. Internet. Telemóvel. Vizinhos. Escadas de comunicação, mesmo que seja com máscara e a dois metros. Ouvimos as vozes da família quando queremos e como queremos. Há programas sofisticados para fazermos reuniões. Detesto, porque tenho dificuldades de aprendizagem e um Mac antigo, mas isso é geracional.

E sobretudo temos acesso a informação científica correcta, temos um SNS à altura.

E temos esperança.

Só os da minha geração sabem o que era o verdadeiro confinamento. E o medo.