As águas cor de chumbo no mar do Brasil

imagem António Cotrim_Lusa em sabado.pt

Como o presidente brasileiro eleito, Jair Bolsonaro pode pôr abaixo conquistas históricas, fazer avançar retrocessos e voltar o país 50 anos atrás.

Será preciso tempo para entendermos o que aconteceu no domingo, 28 de outubro, no Brasil. A vitória de Jair Bolsonaro (PSL), com mais de 55% dos votos válidos, não deve ser lida como uma derrota apenas do Partido dos Trabalhadores (PT). É uma derrota da democracia uma vez que, ao que tudo indica, a campanha eleitoral foi decidida no mundo digital em paralelo à campanha televisiva e nas ruas, por meio da divulgação de informações falsas, a maioria pautada em questões morais relacionadas com género e sexualidade. Ou seja, as eleições não foram decididas a partir de um plano de governo apresentado e esclarecido ou, poderíamos dizer ainda, por convicção de parte do seu eleitorado de que Bolsonaro seria o melhor nome para tirar o país da recessão, mas baseada em notícias falsas a respeito do ataque aos bons costumes da família brasileira, empreendida no país desde a primeira vitória do PT em 2002.

Com menos de 10 segundos de tempo de televisão, concorrendo por um partido do baixo clero do Congresso Nacional brasileiro, sem um grande cacique que o apoiasse e sem presença nos debates, Bolsonaro falou diretamente aos seus seguidores e depois eleitores nos últimos 4 anos por meio de suas contas no Facebook, no Twitter e por grupos de WhatsApp, por onde seus vídeos e conteúdos se espalharam em proporção estratosférica. Na semana anterior às eleições, o jornal Folha de S. Paulo denunciou o esquema de empresas que compraram irregularmente pacotes de disparos massivos de envio de mensagens contrárias ao PT, o que configura “caixa 2” [‘saco azul’] e é proibido por lei. Os contratos chegavam a 12 milhões de reais (cerca de 3.242 milhões de euros).

Nesta segunda-feira (29), durante entrevista ao Jornal Nacional, da Rede Globo, o jornal televisivo de maior prestígio no país, ele voltou a citar o “kit gay”, mesmo o episódio tendo sido desmentido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que o proibiu de usá-lo em horário eleitoral para atacar Fernando Haddad, candidato do PT derrotado. A insistência do presidente eleito em falar do “kit gay”, sua defesa de que não existem minorias (“todos serão tratados igualmente”, disse) somado ao fato de que sua vitória aumenta a força da bancada evangélica no Congresso Nacional corrobora o alerta de que a agenda de costumes estará em pauta no novo governo.

De acordo com o jornal El País Brasil desta terça-feira, 30, a longa lista de apoiantes evangélicos de Bolsonaro inclui o bispo Robson Rodovalho, criador da Sara Nossa Terra, uma das principais igrejas evangélicas do país, e tem como unificador a bandeira de combate à “ideologia de género” e em favor da família tradicional. Por aí, imaginamos o qual difícil será não apenas tratar as questões de género de diferentes grupos (mulheres, LGBTIs), mas manter as conquistas dos últimos vinte anos.

O momento político pede a máxima atenção: por um lado aos programas que dizem respeito à cultura e à educação, pasta ministerial que os evangélicos já sinalizaram que querem tocar, e por outro ao programa económico, os quais põem em xeque a garantia de direitos, como a revisão da reforma trabalhista e a reforma da previdência, a ser votada tão logo Jair Bolsonaro assuma o cargo de presidente da República. Em entrevista, ele reiterou desejar trazer de volta o país de 50 anos atrás. A tomar pela cor das águas neste momento, o que prenuncia tempestade, é o que pode acontecer caso não haja resistência.

Resistência pede vigilância, não só no Brasil, mas em toda a comunidade internacional. Todos – Estados, instituições várias, universidades, grupos de pesquisa, investigadores… – temos o dever de estar alerta para que as falhas no cumprimento da liberdade de expressão e de criação, dos direitos de mulheres, negrxs, LGBTI e outros não passem incólumes. Temos o dever de dizer que estamos atentos, que o nosso olhar não será passivo e que do lado de cá seremos uma voz de denúncia e clamor pelos mais elementares direitos democráticos. Sendo que essa é base de toda a nossa atuação enquanto grupo de investigação, enquanto académicxs e cidadãxs, dizemos: PRESENTE!

 

GAPS

 

(Imagem: António Cotrim/Lusa, em http://www.sabado.pt)

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WOMANART #2

Ciclo de Seminários Womanart #2_GIULIA

Giulia Lamoni, investigadora do Instituto de História de Arte da FCSH-UNL, é a próxima convidada do ciclo de seminários WOMANART. No próximo dia 26 de Outubro, estará connosco para nos falar sobre “As artistas brasileiras e a gravura: cultura popular e política nos anos 60 e 70”, às 14h30 na Sala de Reuniões CEHUM.

Linda Nochlin (1931-2017)

Considerada a primeira historiadora de arte feminista, Linda Nochlin deixou um legado que continua a surpreender e que merece permanente revisão. Deixamos aqui uma entrevista com a crítica norte-americana, autora do texto seminal Why have there been no great women artists? (1971) disponível no sítio Hyperallergic. Vale a pena ouvir!

 

Ciclo de seminários WOMANART arranca no dia 25 de Outubro

Ciclo de Seminários Womanart#1_LUISA

O GAPS está a organizar um novo ciclo de seminários no âmbito do projecto de investigação WOMANART – “Mulheres, artes e ditadura – os casos de Portugal, Brasil e dos países africanos de língua portuguesa”, financiado pela FCT (PTDC/ART-OUT/28051/2017).
O primeiro seminário, por Maria Luísa Coelho, é já no dia 25 de Outubro, às 18h, no Anfiteatro do ILCH son o título “Retrato de Família: a figura do pai na obra de Helena Almeida (1934-2018)”.

Aqui fica um breve resumo:

Helena Almeida (1934-2018) is one of the most interesting and relevant artists of Portuguese, even of Western, contemporary art, producing an oeuvre of great integrity and consistency, in which the body of the artist and self-representation (always in an ambivalent, subversive and transgressive relation with that same art tradition) took centre stage. Taking Family Portrait (1979) as a starting point, in this seminar we will explore the ambivalent relation Almeida had with the familiar, either in personal, artistic or national terms, as all these dimensions of the term cannot be dissociated when we look at this artist’s work.

 

 

Notícias sobre atividades do GAPS | newsletter do Centro de Estudos Humanísticos

Na Newsletter do Centro de Estudos Humanísticos destaque para notícias sobre o nosso grupo de investigação:

  • Editorial de Ana Gabriela Macedo sobre o Maio de 68, com o título Maio de 68 – e o conceito de “Liberdade livre”. “C´était au temps des cerises”
  • Notícia sobre o Projeto IC&DT (do GAPS) aprovado pela FCT : “Mulheres, artes e ditadura – os casos de Portugal, Brasil e  países africanos de língua portuguesa”. Coord. Ana Gabriela Macedo. Grupo de Investigação em Género, Artes & Estudos Pós-coloniais (GAPS).
  • Nova publicação CEHUM do GAPS, Estudos Comparatistas e Cosmopolitismo: Pós-colonialidade, Traducão, Arte e Género, de que já aqui demos notícia.

Para ler esta e outras notícias na Newsletter do CEHUM, por favor, siga o link abaixo:
https://mailchi.mp/7f855847d0ea/newsletter-cehum-1?e=4a5c32c96b